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Juventude alcoolizada

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Rapazes e moças estão consumindo bebidas alcoólicas cada vez mais cedo e o que a maioria não sabe, alertam especialistas, é que se trata de uma droga perigosa.

Bruno da Silva estava em uma balada com os amigos e desmaiou após ingerir grande quantidade de álcool e GHB (gama-hidroxibutirato, substância usada para ganhar massa muscular vendida legalmente na Europa, mas considerada droga no Brasil. Ao acordar, um bombeiro realizava os primeiros socorros. Ele ainda não tinha 20 anos e aquela não era a primeira vez que chegava perto de uma overdose por abusar de álcool e drogas. O rapaz, hoje com 23 anos, reduziu o consumo de substâncias ilícitas, mas ainda bebe com frequência e acredita que tudo começou quando foi apresentado ao álcool, ainda na adolescência.

Assim como Silva (o nome do rapaz é fictício para preservar sua identidade), a maioria das pessoas começa a consumir álcool muito cedo. Pesquisa recente do Ministério da Saúde aponta que 71% dos jovens entre 13 e 15 anos já tomaram alguma bebida alcoólica e 22% deles já se embriagaram. “A sociedade fica mais preocupada com as drogas ilegais. O álcool é negligenciado e fica em um posto especial porque as pessoas pensam que podem consumir a vida toda sem problemas”, alerta o psiquiatra Arthur Guerra, coordenador do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas da Universidade de São Paulo (USP).

Três em cada quatro estudantes do ensino médio com menos de 18 anos já beberam álcool, de acordo com estudo divulgado em abril pela Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (FMB-Unesp). Dos 1.507 alunos de escolas públicas e particulares de Botucatu ouvidos pela pesquisa, 38,8% dos estudantes entre 7 e 14 anos já experimentaram bebida alcoólica e 8,5% o fizeram em período recente. A responsável pelo estudo, Priscila Lopes Pereira, destaca que beber para se embriagar é uma prática comum, principalmente entre meninas. Fatores como pertencer à classe social mais alta, estudar em escola pública e não ter prática religiosa facilitam o contato precoce com o álcool, diz a pesquisadora.

“Começa com a batida de bombom com vodca bem docinha, na festa de 15 anos”, brinca a universitária Giovanna Crespo, de 23 anos, sobre o drinque servido em alguns aniversários. “A bebida é oferecida pelos adultos, não tem como não provar”, acrescenta ela, que bebeu pela primeira vez aos 15 anos.

Um estudo do Ibope Inteligência feito para o governo do Estado de São Paulo mostrou que as mesclas e bebidas adocicadas atraem os jovens porque diluem o álcool com sabores da infância, como refrigerantes, sucos, frutas e açúcar. Em São Paulo, 45% dos menores de 18 anos já experimentaram bebida alcoólica e 26% deles fizeram isso entre 12 e 13 anos, enquanto 47% experimentaram na faixa etária entre 14 e 15 anos. Desses, 49% receberam a bebida de amigos e 21%, de familiares.

A psiquiatra Carla Bicca, tesoureira da diretoria da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), alerta para a negligência dos pais. “Muitos adolescentes bebem em casa, vão a uma festa e os pais deixam o filho usar. Os pais não acreditam que o álcool é uma droga”, observa.

A universitária Camila Fonseca, de 19 anos, conta que bebe drinques “mais leves”, como vodca com refrigerante de limão, desde os 14 anos. “Bebia por curiosidade, para me sentir mais solta e fazer parte da turma. Meus pais permitiam”, explica. O amigo dela, Vinícius Caetano, de 23 anos, conta que a bebida o deixava mais corajoso. “Perdia a vergonha e conseguia xavecar as meninas. E tem uma pressão dos amigos”, diz.

A brincadeira aparentemente inofensiva pode ser perigosa. “Jovens que consomem álcool mais cedo ficam mais vulneráveis a desenvolver dependência alcoólica do que aqueles que começam depois dos 21 anos, após a formação do cérebro”, alerta Arthur Guerra.

De acordo com a psiquiatra Carla Bicca, pesquisas mostram que filhos de pais alcoólatras têm 30% mais chances de se tornarem dependentes. Além disso, os adolescentes que bebem se expõem a mais riscos, como envolvimento em brigas, acidentes de trânsito, fraturas e quedas, e podem contrair doenças sexualmente transmissíveis ou ficar desnutridos. “O mau desempenho e o abandono escolar estão associados ao uso excessivo e frequente de álcool, assim como a hipertensão e o diabetes”, diz o médico Ricardo C. Torresan, do Departamento de Neurologia, Psicologia e Psiquiatria da FMB-Unesp.

O consumo de bebidas alcoólicas também facilita a experiência com outras drogas, dizem os especialistas. Dos mais de 60 mil jovens entre 13 e 15 anos que participaram da pesquisa do Ministério da Saúde, 9% experimentaram drogas ilícitas. “É comprovado que o álcool aciona a evolução na escala de drogas. O jovem que bebe convive em um meio fácil de encontrá-las, ele tem mais propensão de experimentar”, avalia Carla Bicca. Segundo ela, o uso de álcool e outras drogas atinge o cérebro e pode desencadear doenças psiquiátricas como depressão, mudança de humor e esquizofrenia.

Apesar das leis que proíbem a compra e o consumo de álcool por menores de 18 anos, na prática o uso de bebidas alcoólicas é largamente difundido, destaca Analice Gigliotti, chefe do Setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro. A especialista critica a falta de fiscalização dos pontos de venda, o excesso de propagandas e a banalização do álcool. “Até na Copa vai ter propaganda de cerveja”, reclama.

Entre os jovens universitários, os abusos são frequentes. A estudante Mariana Zago, de 23 anos, já perdeu as contas de quantas vezes se embriagou em festas da faculdade. “A bebida faz as coisas acontecerem, boas e ruins. Você fica menos tímido, mais alegre.” Um levantamento feito em 2010 pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) e a Faculdade de Medicina da USP mostrou que 60,5% dos universitários tinham consumido bebidas alcoólicas nos últimos 30 dias da data da pesquisa, e 72% nos últimos 12 meses.

Um estudo alemão publicado no fim de outubro no jornal Alcoholism: Clinical & Experimental Research mostra que os dependentes de álcool morrem, em média, 20 anos mais cedo que a população em geral.

Consumo inusitado do álcool

Em setembro, um jovem americano foi hospitalizado após consumir grande quantidade de vinho por meio de um tubo inserido no reto, durante festa em uma fraternidade acadêmica na Universidade do Tennessee. O estudante Alexander P. Broughton, de 20 anos, ficou alcoolizado por uma prática chamada butt chugging. Outras formas inusitadas de consumo de álcool têm sido mote de vídeos espalhados pela internet, como a prática de pingar vodca nos olhos e o uso de absorventes internos encharcados com bebidas alcoólicas e introduzidos na vagina e no ânus. Em 2010, um universitário de 23 anos de Campinas (SP) perdeu 80% da visão do olho direito após pingar várias doses de vodca no olho, seguindo o exemplo de jovens americanos no YouTube. “Esse uso pode trazer sérios riscos, mas é anedótico, a maioria dos adolescentes brasileiros não faz isso”, avalia o psiquiatra Arthur Guerra.

 

Fonte: Folha Universal