English | Español . . .
 
 
...
........

Brincando com álcool

Imprima está página
             
       
Marcia Cezimbra, jornal O Globo
             
 
Brincando com álcool
 

A menor R., de 17 anos, filha de artistas famosos, procurou a Aldeia Clínica, em Niterói, para tentar se livrar do álcool. Ela começou a beber diariamente aos 12 anos, na saída do colégio. Sua pior fase foi entre 13 e 14 anos.

Aos 17, ela não ia mais à escola. Só bebia. Hoje R. ainda está sob tratamento, mas voltou a estudar:

— Eu bebia por farra com os amigos e também por tédio. A vida sem bebida não tinha graça. Tinha um lado também de emagrecer. Quando a gente bebe, perde a fome.

Eu bebia para não comer. Com o tempo, percebi que minha vida era só beber e mais nada. Queria parar, mas não conseguia. É muito difícil. Sozinha é impossível. É preciso pedir e aceitar ajuda — diz R.

A menina é um dos milhares de casos de abuso de álcool entre jovens de 11 a 17 anos da classe média do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os índices cresceram de 25% a 30% nos últimos cinco anos, segundo o psiquiatra Frederico Vasconcelos, coordenador da Aldeia Clínica e homenageado pelo presidente Fernando Henrique no mês passado, juntamente com a autora Glória Perez, por seus trabalhos de prevenção às drogas.

 

A pesquisa sobre consumo de álcool entre jovens, feita em 1997 pelo Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópicas (Cebride), da Unifesp, indicava que 10% dos jovens da classe média abusavam de álcool. Hoje, esse índice é de 13% a 14%, segundo Vasconcelos:

 

— Os jovens de hoje têm muitas dificuldades com limites e a faixa etária do abuso de álcool diminuiu. Há dez anos, o alcoólatra de 40 anos começava a beber aos 17 ou 18 anos. Hoje, aos 12 ou 13. Isso significa que, daqui a dez anos, teremos alcoólatras graves de apenas 35 anos, no auge da vida produtiva.

 

 

O que fazer para evitar o abuso de álcool tão precoce? Frederico está convicto de que palestras eventuais de especialistas em escolas, em vez de melhorar, pioram a situação. As pesquisas comprovam a tese. A Associação Brasileira de Estudo de Álcool e Outras Drogas (Abead) distribuiu este ano o mesmo questionário a estudantes antes e depois de uma palestra sobre drogas. Antes, uma minoria queria experimentar drogas. Depois, 80% estavam curiosos para experimentar alguma droga.

 

A prevenção deve então ser contínua nas escolas e para isso, segundo ele, os professores e funcionários devem se preparar para enfrentar o problema. Essa será a proposta que especialistas vão apresentar a 300 escolas particulares dia 8, na sede da Firjan, no Rio.

 

Pesquisa feita pela escola Imperatriz Leopoldina de São Paulo e pela USP com 546 jovens de 11 a 14 anos constatou que 50% usavam drogas, dos quais 79% estavam habituados a consumir álcool. O psicanalista Eduardo Losicer confirma que o número de adolescentes de 12 a 14 anos, principalmente meninas, que abusam de álcool é assustador no Rio:

 

— O álcool é o grande problema dos jovens de classe média. Perdi a conta dos fins de semana que atendi a meninas em coma alcoólico. Nos anos 60, as drogas eram usadas para aumentar a percepção. Hoje, eles bebem para perder a consciência completamente. É um gesto suicida — diz.

 

No currículo escolar, os riscos do alcoolismo

 

A idéia de que os professores têm hoje mais uma função, a de atuar como agentes de prevenção ao álcool, surgiu na Aldeia Clínica, de Niterói, há três anos, quando a direção do Instituto Abel, de Niterói, pediu ajuda aos profissionais que lá trabalham há 12 anos em prevenção às drogas para enfrentar um problema: três de seus alunos de 14 anos foram pegos fumando maconha. O que a escola deveria fazer?

 

— Eles tiveram uma atitude exemplar. Em vez de expulsar os alunos, o colégio tentou ajudá-los e procurou orientação sobre como agir. A expulsão fere o Estatuto da Criança e do Adolescente porque impõe ao menor um grande constrangimento. Geralmente as escolas vão enrolando os alunos que abusam de álcool até o fim do ano e não renovam suas matrículas. É uma expulsão velada, mas não resolve o problema, porque a incidência está aumentando — diz Frederico Vasconcelos.

 

Para especialistas, muitos pais aprovam o uso de álcool 

 

Outras escolas como as da Rede MV1 pediram à Aldeia Clínica palestras sobre drogas, mas os resultados não se mostraram eficazes:

 

— Concluímos que o álcool é um problema de uso continuado e a prevenção deve ser contínua. Convidamos 300 escolas para discutir propostas concretas de capacitação de professores e funcionários para enfrentar o problema já. O professor tem vínculos com o aluno e pode identificar o problema antes que ocorra — diz Vasconcelos, que conseguiu patrocínio da Canadá Seguros, especializada em seguro escolar, para o evento.

 

O projeto pretende ainda incluir no currículo escolar a questão do abuso de álcool e dos riscos do alcoolismo:

 

— Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) prevêem temas transversais nos currículos, como essas questões. A prevenção deve ser primária. Devemos atuar antes que os problemas apareçam, com trabalhos indiretos feitos ao longo do ano — diz.

 

Os módulos estão prontos para entrar em funcionamento e tentarão sensibilizar professores e funcionários para conhecer a questão e trabalhar com os alunos, difundindo noções de adoecimento pelo uso de álcool e outras drogas.

 

O Grupo Escolas Rio, que reúne 40 colégios particulares cariocas, entre eles Andrews, Zacharias, Teresiano, São Marcelo e Rio de Janeiro, já capacitou seus professores para esse trabalho de informação aos alunos sobre o risco do álcool e das drogas. O diretor do Colégio Andrews, Pedro Flexa Ribeiro, membro do Grupo Escolas Rio, diz que os colégios fornecem as informações, mas nem sempre os alunos param com o álcool e as drogas.

 

A exemplo dos professores do Colégio São Luís, em São Paulo, que percorrem os bares da Avenida Paulista implorando que não vendam bebidas aos menores, Pedro Aleixo disse que, no Rio, muitas escolas já tiveram que fazer esse trabalho em bares da vizinhança:

 

— Isso é extrapolar completamente a função da escola e do professor, mas já aconteceu muitas vezes aqui no Rio.

 

Para o psicanalista Luis Alberto Pinheiro de Freitas, autor de "Adolescência, família e drogas" (Editora Mauad), a liberalidade de muitas famílias com o álcool é um dos maiores problemas para a prevenção:

 

— Há o mito de que a maconha leva os jovens a outras drogas. Mas é o álcool que faz esse papel. E a própria família incentiva o consumo. Tenho pacientes que começaram a beber quando o pai, orgulhoso do filho que virava homem, os chamava para drinques.

 

Um exemplo é o da jovem F. de 14 anos, que viveu um drama doméstico ao ser flagrada pelos pais com maconha:

 

— O meu pai fez um escândalo. Logo ele, que toma dois Lexotan por dia e todo aniversário toma um porre e dá altos vexames — conta a menina.

 

Para Frederico Vasconcelos, o álcool gera uma doença de longa evolução (dez anos em média) e o abuso entre jovens os leva a drogas maiores:

 

— Uma delas é o ecstasy, encontrado em dois tipos de pastilha: a MAP( meta-anfetamina) e a MDMA (metil-dietil- MA), esta com propriedades alucinógenas e ambas vendidas a R$ 50 cada, nas boates da Zona Sul e da Barra da Tijuca. O adolescente se expõe hoje muito mais ao álcool. Está se formando uma geração de dependência de álcool.

 

Além dos riscos à saúde, há os perigos de dirigir embriagado, da violência e de traumatismos decorrentes do abuso de álcool.

 

Fonte: Revista Época

Bookmark e Compartilhe
Centro Terapêutico Viva
 
Voltar
 
........
........