Carta de Resgate

Dependente escreve depoimento para ajudar seu amigo internado em uma clínica de recuperação. Conheça a Carta de Resgate. 

Caro amigo(a) em recuperação,

Fico imensamente feliz em poder compartilhar o que foi o álcool e as drogas em minha vida. Como entrei nesse mundo, o que vivi e como consegui me recuperar. Deixo aqui um depoimento do que foi minha trajetória diante do álcool e demais drogas.

Nunca sabemos quem será um dependente, muitas são as causas do uso freqüente e indiscriminado do álcool: por carências, por falta de auto-estima, por decepções, por falta de coragem em enfrentar o duvidoso; o que pode levar ao vicio, à dependência. Um fator que faz fatalmente a diferença é a existência da carga genética.

No meu caso o que me levou a beber cada vez mais e mais provavelmente, foi a carga genética. Existiam casos em minha família, pelo lado do meu pai. Familiares próximos de pessoas alcoólatras, apresentam um risco quatro vezes maior que indivíduos que não têm familiares alcoólatras.

Sempre tive o álcool na minha família, desde criança presenciei cenas de violência, desamor, dissabores, falta de auto-estima, falta de dignidade e coragem, em meu querido pai, que também foi um doente do álcool, e por esta razão veio a falecer.

Meu pai não era uma má pessoa, muito pelo contrário, mas, se tornava uma pessoa decadente quando estava fora de si e sob o efeito do álcool. Pois quando ingerimos qualquer tipo de droga deixamos de ter uma alma autêntica, passamos a ter um eu que não existe quando estamos sãos ou sóbrios.

As características que meu pai apresentava eram resultantes da doença que também adquiri por herança genética.

Eu deveria ter me tornado justamente o inverso de meu pai, ter observado mais o que acontecia com ele, ter mais audácia, mais amor e ser uma pessoa sempre alegre, amorosa, que deixasse meus familiares satisfeitos em ter minha companhia por perto, mas não, não tive maturidade para separar as coisas e aos 18 anos comecei no caminho do álcool também.

Pensava que tinha controle sobre a bebida, a usava porque ela dava prazer, alegria, trazia conquistas, como aquela mulherada que víamos nas propagandas de televisão são lindas ali no reclame,né?. Mas não foi isto que aconteceu.

Com o passar dos anos, eu precisava de mais e mais álcool, pois o organismo se torna tolerante a bebida e cada vez mais precisa de uma quantidade maior para ter as mesmas sensações daquela única cervejinha que tomava quando comecei a beber.

Então as doses foram aumentando e os tipos de bebida também. Até que um dia, não mais satisfeito de beber tanto, parti para outras drogas, como a cocaína. Também foram aumentando as amarguras de minha família e minha auto-estima – meu amor próprio e minha vontade foram se dissipando, foram indo embora.

Isso começou a afetar de forma intensa a família e pessoas muito amigas, que penavam em ver-me caindo nas ruas ou causando problemas, confusão e quase mortes em vários lugares.

E quanto as belas mulheres das propagandas de televisão, você deve imaginar o que encontrei.

Estava freqüentado lugares que sempre temi, como as biqueiras onde buscava minhas “droguinhas”. Estava andando com pessoas, que muitas pessoas nem passavam perto, de temor, e isso só me afundava, me levando a um abismo sem fim, e assim fui destruindo minha moral perante a sociedade. Cada vez que colocava em meu organismo estas substâncias alcoólicas ou químicas, me tornava cada vez mais um anti-social.

Minhas alucinações, delírios e crises começaram a surgir, cada vez mais e com maior intensidade. Não vou lhe falar quantas vezes fiquei internado, pois não saberia precisar a quantidade, pois foram muitas vezes.

Um dia não agüentava mais esta vida, ajoelhei pedindo a deus uma saída, pois não agüentava mais tanta depressão, pois a droga tem um ciclo: inicialmente causa entusiasmo, depois vem a perturbação mental e a depressão.

Ai você ingere mais droga para voltar a se entusiasmar. É uma bola de neve. Quando menos esperamos nos tornamos um dependente.

Deus me ouviu e mandou um anjo em minha casa, um amigo que não via há muito tempo, também dependente.

Este meu amigo chegou num sábado pela manhã aqui em casa, eu estava acordando de uma ressaca brava, ele me convidou à participar de um grupo que ele estava freqüentando e me disse que estava em abstinência do álcool e drogas há mais de 06 meses.

Inicialmente não acreditei no meu amigo, mas pensei na hora, este é o sinal de deus! Pois se este meu amigo que tanto bebeu e se drogou conseguiu parar, por quê eu não vou conseguir? Por quê?

Resolvi me dar uma chance e fui freqüentar o mesmo lugar que estava auxiliando o meu amigo em sua recuperação.

Hoje estou há meses sem ingerir nenhum tipo de substância nociva ao meu organismo.

Deixo aqui pra você duas frases para reflexão:

drogas são subtração !

Viver sem elas é evolução!

 

Depois que deixei as drogas observei que meu ciclo de amizades voltava a ser interessante e que me agregavam muitos valores, além de estar reconquistando minha família que hoje vive muito feliz, e até voltou a me convidar para as ocasiões familiares ( pois antigamente eu era o excluído).

Também resolvi investir na prevenção ao uso abusivo de drogas e fiz treinamento no denarc, me tornando um agente de prevenção ao uso de drogas.

Através de cursos e palestras que ministro hoje e grupos de recuperação, me motivo cada dia mais a manter a distância desta vida ilusória e a resgatar e prevenir vidas.

Concluindo , a dependência é lenta, progressiva e tem um ciclo certo se não interrompido a tempo: começo, dependência e morte!

Dizem que na vida das pessoas dependentes, existem 3 c’s: caixão, cama ou cadeia, eu vivenciei dois deles, e graças a deus, ao meu amigo e a mim que me dei esta chance, estou muito vivo e continuarei por muitos anos, para poder dar minha contribuição a quem ainda não se recuperou desta doença tão sofrida pra quem adquiri e para os familiares, pessoas que nos amam, que sofrem muito.

Espero que este relato lhe ajude e que você acredite sempre na força do amor divino. Pois deus nunca lhe abandonará e os familiares que realmente o amam, sempre estarão a sua volta, mas honre sempre este amor e tome a atitude que julgar adequada para chegar a ter uma boa qualidade de vida, pois só você pode decidir por isto!

Temos aqui em sp a associação anti-alcoólica onde busquei ajuda, por orientação do meu amigo, considero vital participar de grupos assim, pois você só terá conquistas ao lado de uma organização de dependentes e ao lado de deus te segurando, e o apoio incondicional da familia que é o esteio que necessitamos sempre!

Com muito carinho, amor e desejo de sucesso,

Anderson José Capelari

 

Esta carta foi enviada em 02/03/2008 para um amigo internado em recuperação.

2 comentários Adicione o seu
  1. Nossa, tocante o artigo. Gostaria que uma das pessoas que mais amo, achassem do alcool a mesma coisa que eu acho e que acreditasse nestas histórias. Tão triste quanto ser alcoolatra, é amar um. Você sofre junto com eles sendo que você não bebe. Como pode isso ?

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