“É preciso acabar com o prestígio social de beber álcool”

Enquanto lia os mais recentes dados a respeito do consumo de álcool no Brasil, divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) há poucos dias, me deparei com esta frase que não poderia ser mais adequada à nossa cultura de bebidas alcoólicas. A citação foi feita por Maristela Monteiro, assessora principal sobre o uso de substâncias e álcool da OMS, a respeito da necessidade de redução do consumo de álcool.

O consumo de álcool no Brasil

Segundo os dados mais recentes da OMS, os adultos brasileiros bebem, em média, 8,7 litros de álcool puro por ano. Embora essa quantidade já tenha sido maior em pesquisas anteriores, o país continua sendo um dos principais consumidores de bebidas alcoólicas das Américas e ultrapassa a média mundial.  De acordo com a medição, baseada em dados compilados entre 2008 e 2010, o país ficou em 9º na média de consumo alcóolico, entre 35 países pesquisados no continente.

“Algo está mudando na América Latina”, diz Maristela à BBC Mundo. “Nunca houve uma forte cultura de consumo na região, mas o desenvolvimento econômico e novos valores importados da globalização estão fazendo com que o consumo excessivo e abrupto seja uma tendência.”

Além disso, Monteiro menciona fatores como o crescimento da indústria de bebidas. “O álcool chega a todas as partes: foram melhoradas as cadeias de distribuição, há mais estabelecimentos e oferta e tampouco é desprezível a pressão que a indústria sabe exercer sobre os governos para que os preços do álcool fiquem baixos e não haja regulações.”

Jovens e o álcool

O relatório da OMS cita outro estudo que identifica o álcool como a maior causa de morte entre jovens brasileiros entre 15 e 19 anos. E, “ainda que o Brasil tenha repetidamente imposto leis para baixar o limite legal de teor alcóolico no sangue e aumentar as penas para quem bebe e dirige, esses esforços não têm tido efeitos duradouros na segurança viária”, aponta o texto.

Doenças

Além disso, a organização calcula que o consumo de álcool contribua com mais de 200 doenças ou lesões, como cirrose hepática e alguns tipos de câncer. Também torna as pessoas mais suscetíveis a doenças infecciosas, como HIV e tuberculose, e menos receptivas ao tratamento.

Mais consequências do álcool

“A América Latina e o Caribe estão pagando um preço alto em saúde, recursos financeiros e produtividade” por causa desses excessos, observa Anselm Hennis, diretor do Departamento de Doenças Não-Transmissíveis e Saúde Mental da OMS.

Para Maristela, “o álcool não afeta só quem bebe. Aumentam os episódios de violência e os acidentes de trânsito e baixa a produtividade do país por culpa não só de faltas ao trabalho, mas sim pelo que se conhece como ‘despresentismo’, ou seja, pessoas que chegam ao local de trabalho sem forças (pelo efeito do álcool)”.

Ela defende que os governos elevem os impostos sobre o álcool, para encarecê-lo; limitem horários e dias de venda de bebidas nos estabelecimentos; subam a idade legal mínima para o consumo; e reduzam ou proíbam sua publicidade (70% dos países não têm regulamento para tal).

Dados retirados do BBC Brasil

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