Meu nome não é Dorian Gray

Meu nome não é Dorian Grey

(Por Luis Claudio)

Meu nome não é Dorian Gray, como vocês devem imaginar. Mas durante grande parte de minha vida, vivi como tal. Para quem não conhece o romance do grande Oscar Wilde, trata-se de um belo jovem que faz um pacto com o demônio para levar uma vida libertina de experiências variadas e amorais; enquanto isso, seu retrato, escondido de todos e inclusive dele mesmo, envelhece, e registra todos os pecados que corrompem a alma. Eu vim de família abastada, fui jovem , bonito, e vivi até pouco tempo sob a égide da boemia. Mas em meu retrato, sepultado, os traços delineavam as linhas tênues de um homem fraco, as cores pálidas da covardia e a inconsistência da incapacidade.

Tive uma infância e adolescência cômoda, fácil e confortável. Bastava não fazer, que faziam, não querer, que me davam, me enfezar, que cediam, cortejar, que conquistava, desejar, que tinha. Não consigo identificar com precisão em que momento tudo começou. Popular e bacana, ao final da adolescência eu já era dono de 5 dos 7 pecados capitais- rejeitei apenas a inveja e avareza. Formação escolar inacabada, trabalhos sempre temporários, relacionamentos noturnos furtivos, muitos amigos de bar, e chatice da família.

Passaram-se assim 20 anos. Felizes, sempre com um copo nas mãos. E como a prática leva à perfeição, tornei-me um adulto agradabilíssimo, alcoólatra e, talhado para isso, assumi como parte de mim o talento para o fracasso, em uma vida nula de conquistas próprias. Pais separados, morando com mamãe, acompanhado de prostitutas e travestis, apanhei, fui roubado inúmeras vezes, fiz dívidas, sofri acidentes, contraí algumas doenças e, por um grande acaso da sorte, nada fatal nem soropositividade, ao contrário de alguns relatos que já ouvi.

Os muitos vexames, vergonha e desprezo, podiam ser esquecidos e transformados pelo álcool. Embebedei minha autocrítica, amorteci minha percepção, esqueci a dignidade, deturpei o sofrimento de meus familiares e menti às minhas perspectivas, porque viciado não tem futuro- só presente. Emprego, mulher, família (exceto mãe, que é um espécime sem classificação), amigos e patrimônio, sempre serão, em algum momento, afastados pelo álcool- portanto, não se enganem fazendo planos.

A promessa futura de “algum dia”, era logo esquecida e permanecia enterrada, no fundo do meu inconsciente, ao lado direito do meu autorretrato decadente. Raras vezes no A.A., eu contemplava à distância àquelas figuras sombrias, estúpidas, pobres, semi-alfabetizadas e patéticas: não compartilhava de seus mundos, suas dores e seus fracassos. Eles não eram meu reflexo. Eu, tal como Dorian Grey, me sentia quase bonito. Quase rico. Charmoso. Aquele não era o meu lugar. Pelo menos, não sóbrio e nem à luz do dia. Talvez à madrugada, nos becos ou na zona, eu voltasse a reconhecê-los. Mesada. Chatice. Olhos decepcionados, tristes, envergonhados, acusatórios, cheios de pena, lamentações e lágrimas. Saco. Decidi parar de enxergá-los. Fundo do poço? Onde fica, exatamente?

Terapia, 5ª. tentativa. Mãe: “…tenho medo de morrer e ele parar na sarjeta. Quem vai cuidar dele? Os irmãos já desistiram há tempo”, “…causar ou morrem em um acidente…”, “…o álcool transformou nossa vida em um inferno…”. Ainda bem que foi o álcool. Não eu. Papai parou de falar comigo. Há 2 anos. Morreu. E fez questão de dizer a todos que eu fui o grande fracasso de sua vida. Garçom, mais uma dose, por favor! Lara, amigona, deixou de atender meus telefonemas há 3 dias. Não lembro por quê. Porra, faltaram só 2 reais, pendura aí que depois eu pago. Eu? Passei a mão na minha afilhada de 16 anos?? Merda. Preciso de uma dose dupla… Meu limite do cartão desapareceu ontem, foi embora, não me pergunte como. Não, Pedro, não fui eu quem arranhou o seu carro, juro que o coloquei na garagem inteiro, eu nem bebi ontem. Não acredita? Foda-se.

Mamãe, me empresta o carro, vou pro curso… Ah, mãe, manda a tia cheirar o rabo dum macaco ao invés de ficar falando que eu tô fedendo a cachaça! Fedido é o cocô do neto dela que já devia ter parado de usar fralda, aquele retardadinho! Porra, Renato, há quanto tempo, hein…!! Sério, nasceu? Vou visitar sim!! Eu tô bem, sim! Ah, acabei saindo daquele emprego, não era prá mim, cara… Quem vai me impedir de sair de casa? Você?? Ou me dá a chave, ou arrombo essa merda! Desculpa, tá. Acho que perdi, você guardou um iphone 4 que era da Camilla? Se não for usar mais… Gooool!!!!!! Quando foi? Semana passada? Não, cara, faz tempo que não falo com eles, nem fiquei sabendo. Cês vão viajar prá lá? Eles também?? Que legal, lindona! Não, vou ficar esse revellion por aqui mesmo, tô meio sem grana… NÃO-ENCHE-MEU-SACO!!

Quando fiz 39 anos, minha mãe me deu de presente a notícia de que tinha câncer de intestino com metástase para o fígado, sem expectativa de cura, somente de tratamento para reduzir a progressão da doença, e que trocaria qualquer milagre de cura para a doença dela, pela cura para a minha. Pela primeira vez na minha vida, senti que algo era sério. Me comprometi com ela, e para isso tive que me comprometer comigo.

Comecei combatendo a preguiça. Como único filho sem emprego, a acompanhei em todas as consultas médicas, no implante do cateter, nas sessões de quimio, nas lojas de perucas, nos encontros com as amigas, aos domingos na igreja, a levava ao salão de beleza, poucas vezes ao teatro, e de vez em quando, assistia à novela com ela. Como gosto de cozinhar, tive que aprender a cozinhar alimentos mais saudáveis, com a orientação da nutricionista, e iniciei com ela a nova fase da dieta saudável.

Foi muito difícil vencer a soberba, e frequentar os encontros dos A.A. Posso contar no dedos quantas vezes faltei aos encontros. Não sou perfeito, detestei principalmente no início, tive minhas angústias, dúvidas, recaídas, pequenos fracassos, mas me comprometi a voltar sempre na próxima reunião independente do que eu fiz no dia anterior. Desisti de me condenar, desde que eu voltasse sempre. Terapia e remédio ajudam a controlar a ansiedade. Sem interrupções, desta vez. Após quase dois anos, consegui um emprego através de amigos: pouco para o que eu achava que merecia, mas justo para o que eu tenho a oferecer, com minha formação superior incompleta e experiência profissional sofrível.

Minha namorada é bacana, e embora a rotina a dois seja menos excitante e intensa que a vida que eu levava, estou me acostumando a apreciar mais a tranquilidade. Sexo regular e sóbrio é mais difícil e menos divertido, mas se a prática não leva à perfeição, pelo menos melhora, não? Ainda brigo (mesmo com mamãe que não está bem), ainda tenho preguiça, ainda me sinto melhor que os demais, engordei 14 kg, e embora evite programas sexuais fora do relacionamento, gosto de pornografia (legal) pela internet. Estou longe de ser perfeito. Luto conscientemente e pratico bastante, diariamente, para ter disciplina. Tento me conter todos os dias, a todo momento.

Um dia por vez. Perdi um pouco a espontaneidade e alegria. Ganhei auto-respeito, dignidade, e não tenho mais vergonha de mim mesmo. Nem no espelho, nem do retrato.

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