VIOLÊNCIA DOMÉSTICA, ÁLCOOL E PANDEMIA: QUAL A RELAÇÃO?

Uma das principais preocupações despertadas durante a pandemia e o isolamento social foi o crescimento da violência doméstica, que também pode ser diretamente influenciado pelo aumento do consumo de álcool nesse período. 

Esse é um dos alertas do boletim “Álcool e a Saúde dos Brasileiros”, elaborado pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) e que tem como objetivo contribuir para a conscientização, prevenção e redução do uso nocivo de bebidas alcoólicas. 

Vale ressaltar que a violência doméstica é uma questão complexa, sendo resultado de diversos fatores culturais, sociais e individuais – o que inclui o consumo nocivo e prejudicial de álcool como um dos fatores de risco evitáveis. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), esse problema está relacionado com cerca de 18% dos casos de violência. 

Ainda segundo a OMS, durante o isolamento social foi registrado um aumento de 60% das ligações de emergência por mulheres vítimas de violência em países europeus. Comparando esse dados com os do mesmo período do ano anterior, a procura por linhas diretas de apoio à prevenção da violência também cresceu até cinco vezes. 

É importante notar, segundo o relatório, que as consequências indiretas da Covid-19 podem atuar como estímulos para o uso pesado do álcool, o que, por sua vez, é considerado um fator de risco para a existência da violência interpessoal e doméstica (principalmente em contexto de isolamento social). 

Em 2020, a Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu a violência contra as mulheres como uma “pandemia global”. Assim, a coexistência de duas pandemias intensifica ainda mais os resultados negativos sobre a saúde e bem-estar de quem já vivia nessa situação antes da chegada da Covid-19. 

14,1% mais ligações para o número 180

No Brasil, segundo a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH), houve um aumento médio de 14,1% no número de denúncias feitas ao Ligue 180 nos primeiros quatro meses de 2020, em comparação ao ano anterior.  

Os dados mostram que o total de registros entre janeiro e abril de 2019 foi de 32,9 mil, contra 37,5 no mesmo período de 2020, com abril sendo destaque por apresentar um crescimento de 37,6% no comparativo entre os dois anos. 

As prisões em flagrante de agressores de mulheres também aumentaram 51,4%, de acordo com uma pesquisa coordenada pelo Núcleo de Gênero do Ministério Público do Estado de São Paulo, assim como as medidas protetivas de urgências que registraram um crescimento de 29,2%. 

Confira:

Mulheres não são as únicas vítimas

O boletim do Cisa chama atenção ao fato de que diversas pesquisas realizadas durante o período da pandemia têm mostrado um aumento da violência, não apenas em países de renda baixa ou média, mas diversas regiões em que foram adotadas as medidas de distanciamento social. 

Além disso, não é somente as mulheres que sofrem com o impacto da violência, outros membros da família também são afetados, como crianças, adolescentes e idosos.  

Por que as pessoas bebem mais na pandemia?

Existem várias possibilidades para explicar um potencial aumento do consumo de bebidas alcoólicas durante uma pandemia. Segundo o Cisa, a hipótese mais comum é a de que certas substâncias, como o álcool, são usadas para aliviar o sofrimento psicológico e lidar com problemas enfrentados durante esse período. 

Nesse sentido, pesquisadores acreditam que as epidemias não são apenas uma ameaça à saúde física das pessoas, afetando significativamente a saúde mental também. Esta, uma vez fragilizada, têm grande impacto no aumento da ingestão de álcool e na mudança para padrões mais prejudiciais desse consumo. 

Vale lembrar que quadros de ansiedade e depressão podem ser agravados pelo uso abusivo de bebidas alcoólicas, e que pessoas que já convivem com problemas relacionados a isso também podem apresentar maiores chances de desenvolver outros tipos de transtornos. 

Todo esse contexto, segundo o relatório, traz preocupação, já que pode persistir após o fim da pandemia, aumentando a carga de danos relacionados ao álcool. Por isso, é importante realizar o monitoramento contínuo e desenvolver ações que ajudem a prevenir e combater esses possíveis prejuízos. 

Fonte:Uol

Dr.Jairo Bouer

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