Bebidas alcoólicas são ‘porta de entrada’ para a dependência na juventude

Isolamento social, nada de festas, baladas e/ou encontros entre amigos. O lazer, de repente, migrou todo e exclusivamente para a tela do celular ou para o convívio com familiares. Uma mudança drástica na vida de adolescentes – faixa etária em que o contato social é cada vez mais essencial. Com isso, foi preciso aprender a se divertir de outra forma e a bebida alcóolica, antes vista como divertimento social, passou a ser considerada como alento e companheira de quarentena. 

“Os jovens realmente têm bebido mais frequente e intensamente durante a pandemia. Acredito que seja porque as opções de lazer fora de casa, passeios e encontros para jogos e festas estão limitadas, e os jovens têm tendência maior ao imediatismo e intolerância maior à paciência, espera e resiliência. Eles têm, também, uma demanda de curiosidade e novidade, e a frustração gera, muitas vezes, a necessidade de entorpecimento, ‘anestesia’ e gratificação. Nesse caso, a bebida alcoólica é a fonte mais rápida de ativação de dopamina.” 
É o que explica Guilherme Álvares Cabral, psiquiatra da Clínica Mangabeiras. Ele, inclusive, relatou o aumento de jovens e familiares em busca de ajuda para tratar e falar sobre alcoolismo, haja vista o aumento de consumo de bebidas alcoólicas, em seu consultório.

“O álcool acaba sendo de fácil acesso, e eles bebem dentro de casa, na casa de um outro amigo que chama para casa com os cuidados ou até mesmo em encontros virtuais em que cada um faz brindes de sua casa. É bastante preocupante, porque são adolescentes que ainda não tem uma maturidade neurológica em relação ao consumo tão regularmente de álcool”, afirma o especialista.  
O estudante de direito Pablo, aqui citado com nome fictício, de 20 anos, é um desses jovens que tem percebido um aumento em seu consumo de bebidas alcoólicas desde o início da pandemia de COVID-19 e a consequente necessidade de praticar o distanciamento social. “Antes, já bebia nos fins de semana, porém, com o isolamento, o encontro com meus amigos e as festas acabaram. Na falta do que fazer nos fins de semanas, comecei a beber sozinho para matar o tempo e o tédio. Algo que foi se intensificando com a evolução da pandemia.”   Desde então, Pablo passou a beber cervejas também nos dias de semana, o que, para ele, se tornou uma preocupação para a saúde no futuro. “A situação que estamos vivendo já causa grande impacto na nossa saúde mental por si só. Mas, geralmente após eu ter bebido muito em alguma ocasião, acabo por me sentir culpado e ainda mais ansioso. No quesito da saúde física, sinto que estou um pouco mais fora de forma, apesar de praticar exercícios regularmente. E tenho medo, pois tenho noção que esse hábito de beber pode ser muito nocivo a longo prazo”, conta o jovem. 

Alcoolismo x saúde mental 

O alcoolismo é considerado como uma doença mental, conforme apresentando por Guilherme Álvares Cabral. Justamente por isso as questões psicológicas e psiquiátricas do indivíduo podem correlacionar com o quadro de exagero do consumo de álcool.  

“Pessoas portadoras de transtorno de ansiedade e depressão podem buscar alívio de seus sintomas, que podem ser gravar na pandemia, no álcool. E tenho recebido casos assim no consultório, pessoas que nunca beberam estão bebendo para aliviar preocupações do dia a dia, relacionadas a dinheiro e emprego. Ou seja, não são só os portadores de distúrbios psiquiátricos e psicológicos, mas pessoas que têm problemas mais sérios. Porém, pessoas com transtorno de ansiedade, fobias, pânico e depressões tem aumentado o consumo”, explica. 

Ele explica que esse consumo exacerbado de bebidas alcoólicas costuma fazer o caminho inverso e causar distúrbios mentais. Também pode ocasionar o estabelecimento de um quadro de alcoolismo no futuro. “Esses jovens podem ficar mais propensos ao alcoolismo, porque o uso regular de álcool em uma estrutura cerebral ainda imatura, em que o processo de sistemas de recompensa ainda não está totalmente cristalizado e formado, pode desenvolver uma ligação mais forte com álcool.” 

Danos físicos

Karina Viana Camargos Braga, especialista em gastroenterologia, explica que o álcool, por ser uma substância depressora do sistema nervoso central, pode acarretar danos ao organismo humano. “Em doses baixas, ele deprime centros inibitórios, resultando em comportamentos extravagantes. Em doses altas, inibe centros excitatórios, o que leva a alterações do pensamento racional e da coordenação motora.” 

No trato gastrointestinal, há, segundo a especialista, o surgimento de gastrites, úlceras, pancreatite, alguns tipos de câncer e alterações no fígado, como doença gordurosa, hepatite e cirrose. “Pode haver, também, o surgimento de hipertensão arterial, alterações no funcionamento do músculo cardíaco e arritmias. No sistema nervoso, há relação com danos cerebrais, em nervos periféricos e predisposição a demência.” 

Ainda, a imunidade pode ser comprometida, deixando o indivíduo mais susceptível a infecções. Em homens, a ginecomastia e impotência sexual são algumas consequências das alterações hormonais causadas pelo álcool. 
Em jovens, os danos podem ser ainda maiores, haja vista o ainda desenvolvimento do cérebro. Portanto, o consumo de álcool antes dos 25 anos aumenta o risco de danos cerebrais e a chance de problemas futuros relacionados com o abuso dessa substância. Há quem desenvolva problemas relacionados ao consumo agudo de grandes quantidades e quem tenha uma relação de ingestão acumulada ao longo dos anos. “Se a exposição se inicia precocemente, a chance de problemas como cirrose hepática, pancreatite crônica, neuropatias e encefalopatia é maior”.

“Os jovens devem ter reforço positivo diante de conquistas, sentirem-se amados e respeitados. A pandemia da COVID-19 fez vítimas indiretas, pois uma parte da população está adoecendo como consequência do isolamento social. Novos casos de transtornos psiquiátricos e abusos de substâncias estão incluídos nesse contexto, e atingem todas as faixas etárias. A prática de atividades físicas e outros hobbies deve ser estimulada, assim como consultas com profissionais capacitados para ajudar, nos casos em que surgirem alterações comportamentais” .

Fonte: Estado de Minas